O século XXI tem sido marcado pela importância, cada vez maior, que os bancos centrais de todo o mundo têm na economia. Com a crise do subprime, da dívida periférica ou o Covid, os bancos centrais têm sido um aliado fundamental dos governos, tendo inclusivamente um papel mais preponderante para o desenvolvimento da economia do que propriamente os decisores políticos. Embora esta afirmação pareça um exagero, a realidade é que têm sido as autoridades monetárias a garantir a estabilidade do sistema financeiro e a solvabilidade de muitos Estados em situações de stress, através de programas de compra de dívida no mercado secundário ou na redução de taxas de juro, que têm permitido que Estados, particulares e empresas se financiem a custos baixos.
Ao longo destes anos (desde 2008), o experimentalismo monetário acabou por funcionar porque os bancos centrais conseguiam libertar liquidez para a economia sem que, com isso, a inflação tenha escalado. Contudo, o pós-Covid foi diferente. Em virtude de um conjunto de circunstâncias, como um aumento abrupto da procura no pós-Covid, uma oferta ainda reduzida em função dos confinamentos e limitações das empresas, a subida dos preços dos combustíveis, entre outros, a inflação acabou por surgir, atingindo níveis que ainda não tinham sido alcançados no século XXI.
Papel do BCE
O Banco Central Europeu, a exemplo de todos os outros, tem como principal função a manutenção da estabilidade dos preços na Zona Euro. É independente e toma decisões em função do seu objetivo, tentando fazer com que a inflação se encontre próxima dos 2%, que acaba por ser um valor que não coloca entraves ao normal desenvolvimento económico. Pelo contrário, uma deflação ou inflação mais elevada acabam por ser prejudiciais por motivos diferentes. No caso que estamos a viver, uma inflação de 6%, 7% ou 8% acaba por ser mais um “imposto” que todos temos de pagar, porque significa que os preços dos bens e serviços aumentam, mas os rendimentos não.
Lagarde vs. Marcelo & António Costa
No fórum económico de Sintra, Christine Lagarde voltou a reforçar a importância do combate feroz à inflação. Assim, referiu que irá continuar a subir as taxas de juro de forma a que a inflação chegue a valores sustentáveis e próximos do mandato que lhe é conferido. Referiu ainda que será fundamental que os Estados estejam coordenados com o BCE, de forma a que a luta contra a inflação demore menos tempo e possamos regressar ao normal. A reação dos principais agentes políticos não se fez esperar. O Presidente da República referiu que, nos EUA, a Fed (Reserva Federal americana) já inverteu a política monetária, o que não é verdade.
Jerome Powell (Presidente da Fed) anunciou uma pausa nas subidas da taxa de juro, mencionando, contudo, que espera subir pelo menos mais duas vezes a taxa de referência até ao final do ano. Já António Costa criticou o facto de a presidente do BCE não ter compreensão relativamente às dificuldades que todos estamos a atravessar. Se, nesta fase, o BCE está a ser mais contundente, a verdade é que, ao longo dos últimos 10 anos, o BCE tem sido um grande aliado de todos os Estados, inclusivamente de Portugal. Foi pelo facto de as taxas estarem próximas de zero e de comprar dívida no mercado secundário, que Portugal e a Europa conseguiram ultrapassar as dificuldades que foram surgindo. Por este motivo, seria importante que os nossos governantes percebessem o papel do BCE, a forma como os ajudou a gerir a dívida e a dinamizar a economia e, em simultâneo, a dificuldade que as autoridades monetárias têm, nos dias de hoje, em fazer baixar a inflação. Se há uma crítica que poderia e deveria ter sido feita por parte dos nossos altos governantes é a forma tardia como o BCE começou a subir taxas, quando todos percebíamos que a inflação já estava a seguir um ritmo imparável.
Orientar a população
O papel daqueles que nos representam é o de gerir os recursos que têm à disposição da melhor forma possível. Complementarmente, têm a missão de indicar o caminho, esclarecer, serem responsáveis e “educarem” a população, alertando para os riscos do facilitismo. Todos sabemos que o nível de literacia financeira em Portugal é reduzido, dos mais baixos da Zona Euro. Por este motivo, é cada vez mais importante que existam alertas para os riscos das decisões que vamos tomando no dia a dia. Por exemplo, o risco de endividamento deveria ter sido abordado numa fase em que tivemos taxas de juro zero. Nessa fase, solicitar crédito era uma missão fácil e sem grandes encargos. O alerta de que a situação se podia alterar deveria ter sido feito, de forma a que a população pudesse equacionar o cenário negativo e não só o positivo. Muito mais do que criar medidas para limitar o impacto das subidas das taxas de juro, é importante e fundamental passar conhecimento aos cidadãos, de forma que estes tomem decisões mais conscientes e ponderadas. Ao invés de tentar encontrar um responsável pelas dificuldades que estamos a atravessar, deveremos ter antes a preocupação de nos prepararmos para as enfrentar a qualquer momento. O conhecimento e a disciplina são fundamentais e determinantes.
Artigo de Diogo Luís